17/02/2008

TRÊS POEMAS

1 - ENTRE AMAPOLAS

Geraldo Reis

Como o feno preconiza a morte dos cavalos
E a tua crença nos astros
Que entre amapolas tombava
Nunca mais te verei.

(Todo boi guarda no corte
O seu quinhão de visita).

Por inventar a chuva sob os plátanos
De janeiros e becos aterrada
Nunca mais te verei.

E nem que os cavalos ressonem na escuridão
na escuridão do milho
E nem que o feno anuncie a palavra medo
entre sombras e retalhos
E nem que a tua falta ante assoprando a semente
Na recomposição de um fogo ainda agora sitiado
Nunca mais te verei.

Entre reconquistas armadas
que são perdas

Repenso a tua boa
De mim
distanciada.

2 - O AMOR E OS VENTOS

Enfim, não te conheço
Não te procuro nem te ressuscito

Espalho aos quatro cantos a notícia
De que não te entendi porque não existias.

Meu sonho foi o teu criador.

Nem foi real a minha febre
Quando me acenava com a tua existência.

E o fato é que não existias
Nem existes
Para o meu completo acabamento.

Ainda agora te reconheço impossível:
Lenda
Sonho
Pesadelo.

Sei que de fato não me tomarás de novo como o guardião
de teus becos
Porque de fato não existes
E eu já não te sonho
Nem te quero.

Não te trago à luz de um pesadelo sequer
Porque é bom que não existas
Como os ventos febris que me sopravas
Com a suposta gravidez de tua boca.

3 - SIMPLES GESTO

Com um simples gesto
Recomporei na memória
Os estilhaços de teu nome e tua boca.

Com gesto simples
Estarei colhendo flores
E entoando amavios apressados
Como se isso fosse a certeza de suas mãos
de súbito
Ressuscitadas para a gratidão da oferenda.

Posso também acalmar os gerânios
Arrancar as petúnias e dar de comer aos cavalos
Vazar meus próprios olhos
Ou demolir a casa
Ou viajar de mim.

Um dia, é certo,
Um dia,
Não me encontrarás enfeitado para a festa
Por promessas de brio e algaravia
Nem que a memória em mim refaça o canto
De teu retrato falado e redimido

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