24/10/2014

AQUI... TODO MUNDO É GENTE FELIZ






AQUI...  TODO MUNDO É GENTE FELIZ 
   

Geraldo Reis - Poeta
Da Academia Marianense de Letras 


Com saudade de Pablo Neruda, eu poderia dizer "os versos mais tristes essa noite".
Dizer por exemplo que o  Rio São Francisco foi dormir cansado, porque a viagem para o Nordeste é longa (e cara).  Parece que o santo não concorda a ideia dessa longa viagem, que não termina.
Com saudade de Pablo Neruda eu poderia dizer por exemplo: que o Brasil fez um vitorioso negócio em Cuba, e que o porto construído com o suor do "brasileiro e da brasileira", cintila por força de uma estrela que anda irrigando irrigando pelo mundo, os cofres de "nossos irmãozinhos discriminados".
Sonho que um efervescente comércio de ideias e de coisas tomou conta do país inteiro. Não há mais nenhum sentimento de angústia ou de desolação. Romperam-se definitivamente os grilhões que punham limite aos empreendimentos, ao livre comércio (principalmente de ideias). E o povo é feliz! A felicidade é uma coisa viva, de brilho permanente, e que se mexe.
No meu sonho, já estou no interior de Minas e aperto as mãos de um médico cubano. “Mãos abençoadas”, eu digo, e ele ri, pois sabe, e sabe, e sabe muito bem, que veio ao Brasil para um trabalho abnegado. Está feliz da vida! 
Quase tudo o que ele ganha vai para o paraíso de Fidel. Ele veio sabendo que é preciso  ajudar a manter o paraíso, “dar uma forcinha". Sem o seu adjutório, sua “colaboração espontânea” para reforçar “o caixa”, com a economia estagnada, a “vaca vai pro brejo’.  Ele não veio aqui para “trabalho escravo”; não,  e daria a própria vida para salvar o seu povo.
No meu sonho as empresas cubanas, que surgiram do nada e se multiplicaram de repente como  se fora a própria multiplicação de pães e peixes, estão comprando e vendendo milhares e milhares de produtos para o Brasil e para o mundo.
Como estou sonhando  “Fidel é apenas um retrato na parede” e Cuba é  um paraíso: o povo canta, pula e dança nas ruas, a liberdade é um livro aberto. 
“Tendo o sonho se tornado realidade, abrimos mão desse conforto: sonhar pra que, se o sonho agora é realidade? Aqui todo mundo é gente feliz”, revela um com entusiasmo um bem sucedido vendedor de sucos.
Agora a poesia é do povo, a rua é do povo, a praça é do povo, Deus é do povo, o povo é do povo.
Tudo acontece e o São Francisco insiste em não chegar ao Nordeste. Eh Santo... Parece que o rio vai de jegue ou vai a pé, ou  não vai, pois não chega nunca,  embora esperado pela sede de milhares e milhares de “brasileiros e brasileiras" com seus copos, com seus baldes, seus açudes vazios, cheios apenas de sonho e de esperança.  Ah, São Francisco...
No meu sonho, passaram-se as eleições.
Fizemos um ótimo negócio, despachamos  para Cuba aquela  que vai fazer e acontecer no país. Com disfarce de aliada, vejo que é recebida ali com honras de Chefe de Estado, que está promovendo “ eleições livres”, que está fazendo “tudo certo”, “sem baixaria”, e que de repente, estará pondo a pique o barco de Fidel e sua trupe, acostumado a navegar  “esplêndido azul” de águas tranquilas. 
E me ocorre um verso:  Vai, “Carlos”, vai ser gauche em Cuba!
No meu sonho chega  Antônio Barreto, com o poema em que o menino emocionado  tenta  acordar o pai dormindo e  diz:  “Pai, já é madrugada no Brasil.”
Lembrando esse verso eu choro  como criança. Copiosamente. 
Quero acordar e ver que agora “vai rolar a festa”, que a madrugada chegou, que domingo já é segunda,  que podemos arregaçar as mangas e, juntos,  reconstruir o Brasil.

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POESIA BRASILEIRA IMPRESCINDÍVEL

  • A CONTINGÊNCIA DO SER - Célio César Paduani
  • A INSÔNIA DOS GRILOS - Jorge Tufic
  • A ROSA DO POVO - Carlos Drummond de Andrade
  • A SOLEIRA E O SÉCULO - Iacyr Anderson Freitas
  • ARTEFATOS DE AREIA - Francisco Carvalho
  • AS IMPUREZAS DO BRANCO - Carlos Drummond de Andrade
  • BARCA DOS SENTIDOS - Francisco Carvalho
  • BICHO PAPEL - Régis Bonvicino
  • CANTATA - Yeda Prates Bernis
  • CANTIGA DE ADORMECER TAMANDUÁ E ACORDAR UNS HOMENS - Pascoal Motta
  • CENTRAL POÉTICA - Lêdo Ivo
  • CONVERSA CLARA - Domingos Pelegrini Jr.
  • CRIME NA FLORA - Ferreira Gullar
  • DIÁRIO DO MUDO - Paulinho Assunção
  • DICIONÁRIO MÍNIMO - Fernando Fábio Fiorese Furtado
  • DUAS ÁGUAS - João Cabral de Melo Neto
  • FINIS TERRA - Lêdo Ivo
  • GUARDANAPOS PINTADOS COM VINHO - Jorge Tufic
  • INVENÇÃO DE ORFEU - Jorge de Lima
  • LAVRÁRIO - Márcio Almeida
  • NOVOS POEMAS - Jorge de Lima
  • O ESTRANHO CANTO DO PÁSSARO - Célio César Paduani
  • O ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA - Cecília Meirelles
  • O SONO PROVISÓRIO - Antônio Barreto
  • OS MELHORES POEMAS DE FERREIRA GULLAR - Ferreira Gullar
  • PASTO DE PEDRA - Bueno de Rivera
  • POEMA SUJO - Ferreira Gullar
  • POEMAS REUNIDOS - João Cabral de Melo Neto
  • POESIA REUNIDA - Jorge Tufic
  • RETRATO DE MÃE - Jorge Tufic
  • VER DE BOI - Pascoal Motta
  • VIANDANTE - Yeda Prates Bernis