23/10/2025

ELEGIA

 

02/12/2007 (data original da postagem) 

 

ELEGIA

  

 

Geraldo Reis


 

Mas eu que sempre te segui os passos

Sei que cruz infernal prendeu-te os braços

E o teu suspiro como foi profundo. 

        (Cruz e Sousa, Últimos Sonetos, p. 18.)



Como quem pôde dormir 

            na tua intimidade, 

e se acostumando contigo 

não calcula, 

nem de longe, 

a falta que fazes

 

Como quem não teve paz 

porque te quis um dia

para querer-te depois 

o tempo todo e por toda a eternidade

 

Como quem se esgota sangrando 

e esconde

repetidos sobressaltos diante de teu porte

 

Como quem se disfarça na tua presença 

e rumina

a verde esperança, como dizem, 

de um dia pernoitar-te

 

Como quem não se revela 

aos deuses novos ainda vivos

nem aos deuses antigos que escaparam mortos

 

e esconde de ti, 

de si mesmo, 

de estranhos e dos íntimos,

essa dor que não cessa e que se multiplica

 

Como quem se dilacera 

com o natural comedimento de teu riso

e abomina o teu gesto de amor em direção a outrem

 

Como quem se inflama 

repleto de desejo

na vontade mil vezes reprimida de abraçar-te

 

E se mostra indiferente, 

como se não te desejasse

e não se ferisse todo por dentro, 

e não sangrasse, e até

não se morresse

diante dos que te possuíram toda 

    - e por inteiro -

e te possuindo logo te olvidaram,

 

Como quem reza para que acabe a festa,

levando os teus pares para o mundo das trevas,

 

Como quem tenta ao piano 

acordes inéditos para despertar-te,

agora que fazes a viagem-não, 

a viagem infeliz, 

indesejável e imprevista,

 

Como quem perde o entendimento de tudo,

o entendimento natural das coisas simples

como o desabrochar dos dias,  

dos gestos interrompidos, 

das rosas que ontem colhias

e que hoje foram ao teu sepultamento,

                        r e p o u s o.

 

Repouso e tento crer na vida eterna

para na vida eterna encontrar-te,

e ao encontrar-te, 

perder-me

nos inacessíveis abismos que não entregas à terra,

e que haverão de salvar-me da colheita irreversível,

preservando-me do tempo e de toda enfermidade.

 

E do pântano

e das trevas

e do efêmero.


Geraldo Reis – BH  29.10.2002

POESIA NA ESTANTE

  • 50 POEMAS (Antologia bilíngue: Português e Alemão) - Anderson Braga Horta / Tradução de Curt Meyr-Clason)
  • A CONTINGÊNCIA DO SER - Célio César Paduani
  • A INSÔNIA DOS GRILOS - Jorge Tufic
  • A RETÓRICA DO SILÊNCIO - Gilberto Mendonça Teles
  • A ROSA DO POVO - Carlos Drummond de Andrade
  • A SOLEIRA E O SÉCULO - Iacyr Anderson Freitas
  • A VACA E O HIPOGRIFO - Mário Quintana
  • AINDA O SOL - Gabriel Bicalho
  • ARTE DE ARMAR - Gilberto Mendonça Teles
  • ARTEFATOS DE AREIA - Francisco Carvalho
  • AS IMPUREZAS DO BRANCO - Carlos Drummond de Andrade
  • BARCA DOS SENTIDOS - Francisco Carvalho
  • BARULHOS - Ferreira Gullar
  • BAÚ DE ESPANTO - Mário Quintana
  • BICHO PAPEL - Régis Bonvicino
  • CADERNO H - Mário Quintana
  • CANTATA - Yeda Prates Bernis
  • CANTIGA DE ADORMECER TAMANDUÁ E ACORDAR UNS HOMENS - Pascoal Motta
  • CANTO E PALAVRA - Affonso Romano de Sant'Anna
  • CARAVELA - REDESCOBRIMENTOS - Gabriel Bicalho
  • CENTRAL POÉTICA - Lêdo Ivo
  • CONVERSA CLARA - Domingos Pelegrini Jr.
  • CORPO PORTÁTIL - Fernando Fiorese
  • CRIME NA FLORA - Ferreira Gullar
  • CRISTAL DO TEMPO & A COR DO INVISíVEL - Maria do Rosário Teles do invisível
  • DIÁRIO DO MUDO - Paulinho Assunção
  • DICIONÁRIO MÍNIMO - Fernando Fábio Fiorese Furtado
  • DUAS ÁGUAS - João Cabral de Melo Neto
  • ELEGIA DO PAÍS DAS GERAIS - Dantas Motta
  • ESTESIA (Triolés) - Napoleão Valadares
  • FANTASIA - Napoleão Valadares
  • FINIS TERRA - Lêdo Ivo
  • GUARDANAPOS PINTADOS COM VINHO - Jorge Tufic
  • HORA ABERTA - Gilberto Mendonça Teles
  • HORTA (Versos em Três Tempos) - Anderso de Araújo Horta - Maria Braga Horta e Anderson Braga Horta
  • INVENÇÃO DE ORFEU - Jorge de Lima
  • LAVRÁRIO - Márcio Almeida
  • LIRISMO RURAL (O Sereno do Cerrado) - Gilberto Mendonça Teles
  • MEL PERVERSO - Márcio Almeida
  • MELHORES POEMAS - Paulo Leminski
  • NARCISO - Marcus Accioly
  • O ESTRANHO CANTO DO PÁSSARO - Célio César Paduani
  • O ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA - Cecília Meirelles
  • O SONO PROVISÓRIO - Antônio Barreto
  • O TERRA A TERRA DA LINGUAGEM - Gilberto Mendonça Teles
  • OS MELHORES POEMAS DE FERREIRA GULLAR - Ferreira Gullar
  • PASTO DE PEDRA - Bueno de Rivera
  • PLURAL DE NUVENS - Gilberto Mendonça Teles
  • POEMA SUJO - Ferreira Gullar
  • POEMAS REUNIDOS - Gilberto Mendonça Teles
  • POEMAS REUNIDOS - João Cabral de Melo Neto
  • POESIA REUNIDA - Jorge Tufic
  • RETRATO DE MÃE - Jorge Tufic
  • SIGNO (Antologia Metapoética) - Anderson Braga Horta
  • VER DE BOI - Pascoal Motta
  • VESÂNIA - Márcio Almeida
  • VIANDANTE - Yeda Prates Bernis