01/03/2026

ENFIM, EQUIVOCARAM-SE OS CABRITOS

 

ENFIM, EQUIVOCARAM-SE

OS CABRITOS

 

Geraldo Reis

 

Enfim, equivocaram-se os cabritos

e para tanto amedrontaram-se os cavalos

 

E portanto enlouqueceram-se os aflitos

e espernearam por quanto se enfartassem

 

E assim aventuraram-se os inimigos

a rimares nunca dantes navegados.  

 

Para tanto encomendaram-se os comícios

E para tanto os teoremas se ocultaram

 

E portanto ensimesmaram-se arrecifes  

e oceanos de pedra se  acoitaram

 

E portanto os acólitos ouviram                                    

do Ipiranga no alabastro o que abortaram.

 

II

 

E portanto as encomendas se cumpriram

e os arremedos de promessa se alastraram

 

E assim as parlendas se remiram

E assim os indulgentes se enganaram

 

E assim reinventaram-se os gemidos  

e assim esquartejaram-se os lacaios

 

E assim os girassóis se consumiram

no rancor inconfidente nos armários.

 

III

 

E enquanto encomendavam-se os edifícios,

em novos ritos ruminavam-se os canalhas.

 

E enquanto resumiam-se os colíricos, 

os olhos dos ofídios se danavam.

 

E enquanto organizavam-se os artifícios

os arquétipos de Além Tejo se enfartavam.

 

E enquanto se emplumavam os algoritmos

os barômetros de barro se rasgavam.

 

E enquanto equilibravam-se os arbítrios

as andorinhas de tecido se entortavam.

 

E enquanto besuntavam-se os gravídicos

os aracnídeos e os porcos se encravavam.

 

IV

 

E assim enumeravam-se os altímetros

a meio palmo do casco dos cavalos.

 

E assim carimbaram-se as gotículas

do chafariz nos olhos secos do lacaios.

 

E assim abominaram o velho rito

e assim os argumentos se fecharam.

 

E assim arrebentaram o edifício

E assim desabitaram o locatário.

 

E assim é que mandaram o veredito

ao quinto dos infernos dos armários.

 

V

 

Não direi de como encalacraram-se os cabritos

nem de como inflacionaram-se os condados.

 

Não direi de como roubaram o gabarito

nem de como se domaram os dromedários.

 

Não direi de como não se foram-se os conflitos

nem de como quase todos se mataram.

 

Não direi do plácido repouso adormecido  

de quem sonhava pedrarias e brocados.

 

Não direi da lacração que se benzia

Não direi da sombra morta no alambrado.

 

Não direi de alegações finais do dia

nem de rimares nunca dantes navegados.

 

Não direi da baronesa que chovia

quando um braço do barão foi arrancado.   

 

Não direi da rendilhada maresia

na guilhotina de fumaça do sobrado.

 

Não direi da cobra viva que engoliam  

nem da pedra impenitente que domavam.

 

Não direi da aluvião que dividiam

nem da vesícula de terra que adoçavam.

 

VI

 

Não porque me cale o precipício

não porque me ferre essa navalha.

 

Não porque não tenha compromisso

não porque me corte essa muralha.

 

Não porque não valha o sacrifício

não porque me venham de soslaio.

 

Não porque não tenha a ver com isso

Não porque no flato revidassem.

 

Pois há quem sendo escravo desse nicho  

no lixo se lambuze e se agasalhe. 

 

Pois há quem seja refém do rebuliço

e há quem não tenha perdido essa batalha.

 

E, portanto, equivocaram-se os cabritos

e portanto amedrontaram-se os cavalos.

 

Segundo a lenda, porém, do infinito

um galho morto há de vingar da palha 

 

e um galo cego há de domar o mito

no altar de sacrifício dos armários.

 

GR - 29/JANEIRO/2024

POESIA NA ESTANTE

  • 50 POEMAS (Antologia bilíngue: Português e Alemão) - Anderson Braga Horta / Tradução de Curt Meyr-Clason)
  • A CONTINGÊNCIA DO SER - Célio César Paduani
  • A INSÔNIA DOS GRILOS - Jorge Tufic
  • A RETÓRICA DO SILÊNCIO - Gilberto Mendonça Teles
  • A ROSA DO POVO - Carlos Drummond de Andrade
  • A SOLEIRA E O SÉCULO - Iacyr Anderson Freitas
  • A VACA E O HIPOGRIFO - Mário Quintana
  • AINDA O SOL - Gabriel Bicalho
  • ARTE DE ARMAR - Gilberto Mendonça Teles
  • ARTEFATOS DE AREIA - Francisco Carvalho
  • AS IMPUREZAS DO BRANCO - Carlos Drummond de Andrade
  • BARCA DOS SENTIDOS - Francisco Carvalho
  • BARULHOS - Ferreira Gullar
  • BAÚ DE ESPANTO - Mário Quintana
  • BICHO PAPEL - Régis Bonvicino
  • CADERNO H - Mário Quintana
  • CANTATA - Yeda Prates Bernis
  • CANTIGA DE ADORMECER TAMANDUÁ E ACORDAR UNS HOMENS - Pascoal Motta
  • CANTO E PALAVRA - Affonso Romano de Sant'Anna
  • CARAVELA - REDESCOBRIMENTOS - Gabriel Bicalho
  • CENTRAL POÉTICA - Lêdo Ivo
  • CONVERSA CLARA - Domingos Pelegrini Jr.
  • CORPO PORTÁTIL - Fernando Fiorese
  • CRIME NA FLORA - Ferreira Gullar
  • CRISTAL DO TEMPO & A COR DO INVISíVEL - Maria do Rosário Teles do invisível
  • DIÁRIO DO MUDO - Paulinho Assunção
  • DICIONÁRIO MÍNIMO - Fernando Fábio Fiorese Furtado
  • DUAS ÁGUAS - João Cabral de Melo Neto
  • ELEGIA DO PAÍS DAS GERAIS - Dantas Motta
  • ESTESIA (Triolés) - Napoleão Valadares
  • FANTASIA - Napoleão Valadares
  • FINIS TERRA - Lêdo Ivo
  • GUARDANAPOS PINTADOS COM VINHO - Jorge Tufic
  • HORA ABERTA - Gilberto Mendonça Teles
  • HORTA (Versos em Três Tempos) - Anderso de Araújo Horta - Maria Braga Horta e Anderson Braga Horta
  • INVENÇÃO DE ORFEU - Jorge de Lima
  • LAVRÁRIO - Márcio Almeida
  • LIRISMO RURAL (O Sereno do Cerrado) - Gilberto Mendonça Teles
  • MEL PERVERSO - Márcio Almeida
  • MELHORES POEMAS - Paulo Leminski
  • NARCISO - Marcus Accioly
  • O ESTRANHO CANTO DO PÁSSARO - Célio César Paduani
  • O ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA - Cecília Meirelles
  • O SONO PROVISÓRIO - Antônio Barreto
  • O TERRA A TERRA DA LINGUAGEM - Gilberto Mendonça Teles
  • OS MELHORES POEMAS DE FERREIRA GULLAR - Ferreira Gullar
  • PASTO DE PEDRA - Bueno de Rivera
  • PLURAL DE NUVENS - Gilberto Mendonça Teles
  • POEMA SUJO - Ferreira Gullar
  • POEMAS REUNIDOS - Gilberto Mendonça Teles
  • POEMAS REUNIDOS - João Cabral de Melo Neto
  • POESIA REUNIDA - Jorge Tufic
  • RETRATO DE MÃE - Jorge Tufic
  • SIGNO (Antologia Metapoética) - Anderson Braga Horta
  • VER DE BOI - Pascoal Motta
  • VESÂNIA - Márcio Almeida
  • VIANDANTE - Yeda Prates Bernis