26/10/2026

AINDA ONTEM RUMINÁVAMOS NA SALA

 

AINDA ONTEM RUMINÁVAMOS NA SALA

 

Geraldo Reis

 

Ainda ontem ruminávamos na sala,

o esqueleto dos galos embalados

no compromisso quase braçal 

        de ouvir a grama.

 

Disfarçados de bruma, revisitávamos 

        o vale.

 

E assim marcamos no calendário

o dia de recuperar o sítio hipotecado.

 

Nele dorme antepassado

o ouro em pó de nossos ossos.

 

Ainda ontem ruminávamos na sala

a infâmia dos cavalos que apodrecem 

       na chuva.

 

Hoje nosso canto se repete

no calvário de vidro que inventamos

no quintal colonial que somos

em desvario,

vestidos de raro verde.

 

Nosso canto se assemelha à bússola dos pobres,

atravessando a rua quando chove.

 

E se repete

e deságua

e ressuscita

 

No suor que se renova

no derradeiro tropel de pão 

        que ouvi dos dromedários.

 

Geraldo Reis - BH 07/02/2025

 

DO SILÊNCIO DOS GALOS, COMO EXERCÍCIO BRAÇAL

 

DO SILÊNCIO DOS GALOS,

COMO EXERCÍCIO BRAÇAL

 

Geraldo Reis


E sobretudo,

falo do silêncio dos galos como exercício braçal.

Da inconsequência dos galos 

desmotivados para o canto,

para a festa e para a luta.

 

E sobretudo falo da eloquência nenhuma  

    de gargantas lacradas, 

 

de noites inteiras de insônia,

sem estrelas embora,

sem vagalumes.

 

Falo do exercício de um desrumor

barbarizado sob pedras.

 

Falo do milho que envelhece

e que se curva já vencido,

da uva que se debruça na janela de sobrados antigos

e salta sobre telhados que padecem.

 

Falo do vinho à espera de um amanhecer

além de pedras praias e mares.

 

Falo do canto sem canto,

sem azáfama,

sem alarido.

 

Falo desse jaez de censura e disfarce abaixo da lápide.

 

Do novo dia D que se costura,

de tudo que acabará quando se reabrir o bosque.

 

Falo da inconsistência dos galos.

 

De atropelamentos,

da fuga esbaforida,

do resumo de tudo que sendo incolor

tem ou possa ter sentidos vários...

e nenhum sentido ao mesmo tempo.

 

Falo do canto silenciado

da bala invisível, 

do orifício invisível

que rasga por dentro a madeira que sangra.

 

Falo da Carta Episcopal que se curva amordaçada

consumindo-se em oferendas,

perdida no altar do sacrifício.

 

Falo do Campo Santo insultado

crepitando sob pedras ao crepúsculo

porquanto o nosso lábaro se apartou do cio

porquanto pressentem-se vendavais depois da tempestade.


Falo no cicio dos canários,

da oferenda inútil,

dos canalhas que se entregam a deuses intocáveis.

 

Falo de acessórios inertes

que haveriam de nos proteger da chuva, do vento,

 da fumaça que pesa,

da areia movediça devoradora.

 

Falo de nossos mitos desaparecidos.

 

Não sou nenhum deus, nem nada

e falo.

 

Não sou nenhum duende, nem nada,

e falo.

 

Eu, irmão menor das águas silenciadas

espero modular o tempo de evolução

 dos galos levados à feira

humilhados como deuses vencidos

que depois de aprisionados

perderam o canto. 

 

Humilhados como aqueles malandros

que apostaram o último centavo na roleta,

e perderam

Jogaram contra a noção de canto

e perderam como se perde 

o juízo numa mesa de pôquer.

 

Perderam,

e perderam-se,

e se consumiram...

 

E acabaram menores 

depois do baile de máscaras,

em recanto remoto

no fundo do poço

na bacia das almas

num bar de periferia.

 

Falo sob camisa de força

com os meus joelhos surdos e dobrados

que resistem

 

Com a minha túnica rasgada pelo tempo,

que resiste.

 

Falo

curvado sob o peso de chumbo das intrigas

insígnias,

entregas,

medalhas e temporais cifrados...

 

Falo com os meus pés de barro de espantalho que dorme, 

falo como o réptil de olhos ariscos e sangue frio

que foge e se esquiva sob folhas secas...

 

Por que dorme o espantalho?

De quem foge e se esquiva o réptil

ouvindo longe passos que se aproximam?

 

A quem doar o meu terno de barro de espantalho?

E de que servirá se já não espanta?

 

Fugir, parece,

é jeito novo de organizar o pão para a quermesse.

 

Imagino, pelo pão,

os dias verdes e novos que virão.

 

Por enquanto

os galos não cantam

mas deveriam cantar...

 

Por enquanto as pedras não cantam

mas deveriam cantar.

 

Por enquanto os rios não correm e não molham

mas deveriam cantar

e molhar

e correr.

 

São livres, afinal

 

Galos e pedras e rios

não entendem as coisas

mas deveriam entender.

 

Vou

entre galos

gargalos e talos

e ralos

e retalhos,

 

distante,

cada vez mais,

da lâmina de pão

prometida ontem para alimentar a plebe.

 

Vou, enquanto vamos,

uma vez mais,

e mais uma vez,

inflando o verde em febre,

como um sintoma delgado

no intestino grosso

do fruto improvisado 

que inventamos, como se fosse pão.

 

No útero verde do fruto

o verbo vai retemperando o solo.

Vai temperando o galo como espantalho silenciado.

 

Vai como tributo,

a serviço desse derradeiro

exercício braçal

que não faz milagre,

mas, arredondando o arrebol,

amedronta a aurora.

 

E com rumor de sangue nos olhos desafina o vinho

e organiza o vento e previne a tempestade.                    

 

Geraldo Reis  – BH 07/02/2025                                            

POESIA NA ESTANTE

  • 50 POEMAS (Antologia bilíngue: Português e Alemão) - Anderson Braga Horta / Tradução de Curt Meyr-Clason)
  • A CONTINGÊNCIA DO SER - Célio César Paduani
  • A INSÔNIA DOS GRILOS - Jorge Tufic
  • A RETÓRICA DO SILÊNCIO - Gilberto Mendonça Teles
  • A ROSA DO POVO - Carlos Drummond de Andrade
  • A SOLEIRA E O SÉCULO - Iacyr Anderson Freitas
  • A VACA E O HIPOGRIFO - Mário Quintana
  • AINDA O SOL - Gabriel Bicalho
  • ARTE DE ARMAR - Gilberto Mendonça Teles
  • ARTEFATOS DE AREIA - Francisco Carvalho
  • AS IMPUREZAS DO BRANCO - Carlos Drummond de Andrade
  • BARCA DOS SENTIDOS - Francisco Carvalho
  • BARULHOS - Ferreira Gullar
  • BAÚ DE ESPANTO - Mário Quintana
  • BICHO PAPEL - Régis Bonvicino
  • CADERNO H - Mário Quintana
  • CANTATA - Yeda Prates Bernis
  • CANTIGA DE ADORMECER TAMANDUÁ E ACORDAR UNS HOMENS - Pascoal Motta
  • CANTO E PALAVRA - Affonso Romano de Sant'Anna
  • CARAVELA - REDESCOBRIMENTOS - Gabriel Bicalho
  • CENTRAL POÉTICA - Lêdo Ivo
  • CONVERSA CLARA - Domingos Pelegrini Jr.
  • CORPO PORTÁTIL - Fernando Fiorese
  • CRIME NA FLORA - Ferreira Gullar
  • CRISTAL DO TEMPO & A COR DO INVISíVEL - Maria do Rosário Teles do invisível
  • DIÁRIO DO MUDO - Paulinho Assunção
  • DICIONÁRIO MÍNIMO - Fernando Fábio Fiorese Furtado
  • DUAS ÁGUAS - João Cabral de Melo Neto
  • ELEGIA DO PAÍS DAS GERAIS - Dantas Motta
  • ESTESIA (Triolés) - Napoleão Valadares
  • FANTASIA - Napoleão Valadares
  • FINIS TERRA - Lêdo Ivo
  • GUARDANAPOS PINTADOS COM VINHO - Jorge Tufic
  • HORA ABERTA - Gilberto Mendonça Teles
  • HORTA (Versos em Três Tempos) - Anderso de Araújo Horta - Maria Braga Horta e Anderson Braga Horta
  • INVENÇÃO DE ORFEU - Jorge de Lima
  • LAVRÁRIO - Márcio Almeida
  • LIRISMO RURAL (O Sereno do Cerrado) - Gilberto Mendonça Teles
  • MEL PERVERSO - Márcio Almeida
  • MELHORES POEMAS - Paulo Leminski
  • NARCISO - Marcus Accioly
  • O ESTRANHO CANTO DO PÁSSARO - Célio César Paduani
  • O ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA - Cecília Meirelles
  • O SONO PROVISÓRIO - Antônio Barreto
  • O TERRA A TERRA DA LINGUAGEM - Gilberto Mendonça Teles
  • OS MELHORES POEMAS DE FERREIRA GULLAR - Ferreira Gullar
  • PASTO DE PEDRA - Bueno de Rivera
  • PLURAL DE NUVENS - Gilberto Mendonça Teles
  • POEMA SUJO - Ferreira Gullar
  • POEMAS REUNIDOS - Gilberto Mendonça Teles
  • POEMAS REUNIDOS - João Cabral de Melo Neto
  • POESIA REUNIDA - Jorge Tufic
  • RETRATO DE MÃE - Jorge Tufic
  • SIGNO (Antologia Metapoética) - Anderson Braga Horta
  • VER DE BOI - Pascoal Motta
  • VESÂNIA - Márcio Almeida
  • VIANDANTE - Yeda Prates Bernis