DO
SILÊNCIO DOS GALOS,
COMO
EXERCÍCIO BRAÇAL
Geraldo
Reis
E sobretudo,
falo do
silêncio dos galos como exercício braçal.
Da
inconsequência dos galos
desmotivados
para o canto,
para a festa
e para a luta.
E sobretudo
falo da eloquência nenhuma
de gargantas lacradas,
de noites
inteiras de insônia,
sem estrelas
embora,
sem
vagalumes.
Falo do
exercício de um desrumor
barbarizado sob pedras.
Falo do
milho que envelhece
e que se curva já vencido,
da uva que
se debruça na janela de sobrados antigos
e salta
sobre telhados que padecem.
Falo do
vinho à espera de um amanhecer
além de
pedras praias e mares.
Falo do
canto sem canto,
sem azáfama,
sem alarido.
Falo desse
jaez de censura e disfarce abaixo da lápide.
Do novo dia
D que se costura,
de tudo que
acabará quando se reabrir o bosque.
Falo da
inconsistência dos galos.
De
atropelamentos,
da fuga
esbaforida,
do resumo de
tudo que sendo incolor
tem ou possa ter sentidos vários...
e nenhum sentido ao mesmo
tempo.
Falo do
canto silenciado
da bala
invisível,
do orifício
invisível
que rasga
por dentro a madeira que sangra.
Falo da
Carta Episcopal que se curva amordaçada
consumindo-se
em oferendas,
perdida no
altar do sacrifício.
Falo do Campo
Santo insultado
crepitando
sob pedras ao crepúsculo
porquanto o
nosso lábaro se apartou do cio
porquanto pressentem-se
vendavais depois da tempestade.
Falo no
cicio dos canários,
da oferenda
inútil,
dos canalhas
que se entregam a deuses intocáveis.
Falo de acessórios
inertes
que haveriam
de nos proteger da chuva, do vento,
da fumaça que pesa,
da areia
movediça devoradora.
Falo de
nossos mitos desaparecidos.
Não sou
nenhum deus, nem nada
e falo.
Não sou
nenhum duende, nem nada,
e falo.
Eu, irmão
menor das águas silenciadas
espero
modular o tempo de evolução
dos galos levados à feira
humilhados como
deuses vencidos
que depois de aprisionados
perderam o canto.
Humilhados
como aqueles malandros
que
apostaram o último centavo na roleta,
e perderam
Jogaram
contra a noção de canto
e perderam como
se perde
o juízo numa mesa de pôquer.
Perderam,
e perderam-se,
e se
consumiram...
E acabaram
menores
depois do baile de máscaras,
em recanto
remoto
no fundo do
poço
na bacia das
almas
num bar de
periferia.
Falo sob
camisa de força
com os meus
joelhos surdos e dobrados
que resistem
Com a minha túnica
rasgada pelo tempo,
que resiste.
Falo
curvado sob
o peso de chumbo das intrigas
insígnias,
entregas,
medalhas e
temporais cifrados...
Falo com os
meus pés de barro de espantalho que dorme,
falo como o
réptil de olhos ariscos e sangue frio
que foge e
se esquiva sob folhas secas...
Por que
dorme o espantalho?
De quem foge
e se esquiva o réptil
ouvindo longe
passos que se aproximam?
A quem doar
o meu terno de barro de espantalho?
E de que
servirá se já não espanta?
Fugir,
parece,
é jeito novo de organizar
o pão para a quermesse.
Imagino, pelo pão,
os dias
verdes e novos que virão.
Por enquanto
os galos não
cantam
mas deveriam
cantar...
Por enquanto as pedras
não cantam
mas deveriam
cantar.
Por enquanto
os rios não correm e não molham
mas deveriam
cantar
e molhar
e correr.
São livres,
afinal
Galos e
pedras e rios
não entendem
as coisas
mas deveriam
entender.
Vou
entre galos
gargalos e
talos
e ralos
e retalhos,
distante,
cada vez
mais,
da lâmina de
pão
prometida
ontem para alimentar a plebe.
Vou, enquanto
vamos,
uma vez mais,
e mais uma
vez,
inflando o
verde em febre,
como um
sintoma delgado
no intestino
grosso
do fruto
improvisado
que inventamos, como se
fosse pão.
No útero
verde do fruto
o verbo vai
retemperando o solo.
Vai
temperando o galo como espantalho silenciado.
Vai como
tributo,
a serviço desse
derradeiro
exercício
braçal
que não faz
milagre,
mas, arredondando
o arrebol,
amedronta a
aurora.
E com rumor
de sangue nos olhos desafina o
vinho
e organiza o
vento e previne a tempestade.
Geraldo Reis – BH 07/02/2025