ATÉ QUE SEJAM VIOLENTADOS
PELA NOITE E SE DISSIPEM
TE ESPERANDO,
MEUS CABELOS NÃO DORMEM
Geraldo Reis
Até que sejam violentados pela noite e se dissipem te esperando,
meus cabelos não dormem,
não cantam e não se entregam.
É assim que se declaram em paz comigo.
E assim serão levados à fonte,
ao rio,
à pia batismal.
Assim receberão,
pelo santo óleo do batismo,
pelo fogo das águas do batismo e pela pedra,
as armas para vencer os inimigos.
Receber o batismo implica
em receber o troféu da vitória.
Mas, receio por minhas mãos,
receio que não te encontrem
receio que não te entreguem
a rosa viva que pulsa te esperando
desde as escrituras,
rosa que os meus semelhantes,
escravizados do amor,
acordados,
de mãos erguidas em reza,
reivindicam
numa interminável ladainha
que pulsa te chamando
e repetidamente chamam
“coração”.
.
II
ATÉ QUE SEJAM VIOLENTADOS
PELA NOITE E SE DISSIPEM
Geraldo Reis
Até que sejam violentados pela noite e se dissipem
meus cabelos, que não dormem,
seguem te esperando,
até que sejam deserdados,
deslocados para um ponto
estremecido da lavra inconfidente.
Quando o vento soprar na paisagem,
violentados embora,
estarão te esperando,
entre becos soprados da liteira,
entre fantasmas e torres.
Quando o vento me levar para longe,
longe estarão te esperando.
E longe estarão cantando
para que eu não durma.
Cantarão de tal forma que as pedras
abrirão caminho para o teu regresso.
Mesmo que sejam totalmente dissipados
meus cabelos,
que não dormem,
seguirão te esperando.
Estarão cantando fora da noite
e seguirão cantando fora do tempo
mesmo que não voltes
e mesmo que longe se dissipem
e mais e mais se afastem.
Seguirão cantando
mesmo que não voltes.
Ainda que sejam violentados
e se dissipem
meus cabelos, te esperando,
não dormem,
e agora cantam
e não se entregam.
Mesmo que não voltes
seguirão cantando...
Mesmo que sejam violentados pela noite
e mesmo que totalmente
se dissipem te esperando,
seguirão cantando.
Seguirão cantando
mesmo que não voltes,
Mesmo que não voltes
seguirão cantando.
Só os loucos conseguem ouvir
esse canto silenciado se repetindo,
só os loucos.
Só os loucos ouvirão
do Ipiranga esse canto não-cantado
do Ipiranga esse canto murmurado-sem-murmúrio
canto para dentro de si
como um zéfiro prisioneiro
de um poço, que também te espera.
Canto sem voz,
atravessado,
sem roupagem e sem plumas,
canto secretamente cantado
secretamente nosso,
de resistência,
canto secretamente nu.
Canto assim não-cantado
é canto invencível.
E é um tanto invisível,
que "a brisa do Brasil beija e balança".
É um canto
crespo como o solo
que sendo rico e silencioso,
não se entrega.
É assim, não-cantado,
que meus cabelos cantam
cantam e resistem...
te esperando.
Canto assim, não cantado,
é canto de Minas,
trabalhado em silêncio.
É canto
"ainda que tardia",
te esperando.
Canto que segue ruminando o solo
e abrindo caminho
canto para dentro de si
como um zéfiro prisioneiro
de um poço
que também te espera.
BH 30/ 03/2026.
Poema revisdo em 12/05/2026 - 14/05/2025 e 21/05/2026

