ENFIM, EQUIVOCARAM-SE
OS CABRITOS
Geraldo Reis
Enfim, equivocaram-se os cabritos
e para tanto amedrontaram-se os cavalos
E portanto enlouqueceram-se os aflitos
e espernearam por quanto se enfartassem
E assim aventuraram-se os inimigos
a rimares nunca dantes navegados.
Para tanto encomendaram-se os comícios
E para tanto os teoremas se ocultaram
E portanto ensimesmaram-se arrecifes
e oceanos de pedra se acoitaram
E portanto os acólitos ouviram
do Ipiranga no alabastro o que abortaram.
II
E portanto as encomendas se cumpriram
e os arremedos de promessa se alastraram
E assim as parlendas se remiram
E assim os indulgentes se enganaram
E assim reinventaram-se os gemidos
e assim esquartejaram-se os lacaios
E assim os girassóis se consumiram
no rancor inconfidente nos armários.
III
E enquanto encomendavam-se os edifícios,
em novos ritos ruminavam-se os canalhas.
E enquanto resumiam-se os colíricos,
os olhos dos ofídios se danavam.
E enquanto organizavam-se os artifícios
os arquétipos de Além Tejo se enfartavam.
E enquanto se emplumavam os algoritmos
os barômetros de barro se rasgavam.
E enquanto equilibravam-se os arbítrios
as andorinhas de tecido se entortavam.
E enquanto besuntavam-se os gravídicos
os aracnídeos e os porcos se encravavam.
IV
E assim enumeravam-se os altímetros
a meio palmo do casco dos cavalos.
E assim carimbaram-se as gotículas
do chafariz nos olhos secos do lacaios.
E assim abominaram o velho rito
e assim os argumentos se fecharam.
E assim arrebentaram o edifício
E assim desabitaram o locatário.
E assim é que mandaram o veredito
ao quinto dos infernos dos armários.
V
Não direi de como encalacraram-se os cabritos
nem de como inflacionaram-se os condados.
Não direi de como roubaram o gabarito
nem de como se domaram os dromedários.
Não direi de como não se foram-se os conflitos
nem de como quase todos se mataram.
Não direi do plácido repouso adormecido
de quem sonhava pedrarias e brocados.
Não direi da lacração que se benzia
Não direi da sombra morta no alambrado.
Não direi de alegações finais do dia
nem de rimares nunca dantes navegados.
Não direi da baronesa que chovia
quando um braço do barão foi arrancado.
Não direi da rendilhada maresia
na guilhotina de fumaça do sobrado.
Não direi da cobra viva que engoliam
nem da pedra impenitente que domavam.
Não direi da aluvião que dividiam
nem da vesícula de terra que adoçavam.
VI
Não porque me cale o precipício
não porque me ferre essa navalha.
Não porque não tenha compromisso
não porque me corte essa muralha.
Não porque não valha o sacrifício
não porque me venham de soslaio.
Não porque não tenha a ver com isso
Não porque no flato revidassem.
Pois há quem sendo escravo desse nicho
no lixo se lambuze e se agasalhe.
Pois há quem seja refém do rebuliço
e há quem não tenha perdido essa batalha.
E, portanto, equivocaram-se os cabritos
e portanto amedrontaram-se os cavalos.
Segundo a lenda, porém, do infinito
um galho morto há de vingar da palha
e um galo cego há de domar o mito
no altar de sacrifício dos armários.
GR - 29/JANEIRO/2024


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