E DÓI NA PÁLPEBRA DOS BARCOS
Geraldo
Reis
e
dói na pálpebra dos barcos
e
dói no hímen das pedras
dói
no cancro dos cavalos
dói
no vácuo das procelas
dói
no varal dos lamentos
dói
no gnomo das heras
dói
no bolso do avarento
dói
no báculo das trevas
dói
na fadiga do milho
dói
no ranço do farelo
dói
na pele dos equinos
dói
no cansado das éguas
dói
no brilho dos meninos
dói
nos canteiros de sépia
dói
no animar da oficina
dói
no estertor da promessa
dói
no bagaço dos sinos
dói
no bagulho das prévias
dói
nos atabaques ardidos
dói
nos caninos hereges
dói
no grito dos caprinos
dói
no ábaco da reza
dói
nos alabastros suínos
dói
no alambique funebre
dói
no copo de veneno
dói
nos gnomos em febre
dói
no trilho, dói na tribo
dói
no estertor do casebre
dói
no mar de pergaminho
dói
na varanda funesta
dói
no solo vespertino
dói
no vezo da floresta
dói
no pasto peregrino
dói
no ritmo da festa
dói
quando chora o menino
dói
quando o mundo começa.


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