Geraldo Reis - A Toca da Serpente - A Garganta da Serpente
21/10/2022
ELEGIA AO POETA PASCOAL MOTA de cujo falecimento, hoje, 21/10/2022, acabo de ter notícia
28/09/2022
GERALDO REIS POETA E COLEGAS DA CAIXA ECONÔMICA FEDERAL - AGÊNCIA PADRE EUSTÁQUIO - BELO HORIZONTE /MG -
Pessoas inesquecíveis...
Alguém se reconhece na foto?
23/09/2020
A GRAVIDEZ DA PEDRA
A GRAVIDEZ
DA PEDRA
Geraldo Reis
Os homens não consideraram a gravidez da pedra
E não consideraram o quanto a pedra era triste.
Não consideraram se nela havia ouro,
se a pedra era um sonho
se a pedra era rua
se a pedra era canto
se embalava os pássaros
se dominava a distância.
Os homens não se deram conta
de que a pedra era feita
de um certo elemento
que era o próprio homem.
De um certo minério que havia no sangue
e fazia a memória
do que no homem era pedra,
do que na pedra era homem.
O homem passou pela pedra sem notar
a gestação do menino que havia na pedra
o quanto era pedra na pedra
o quanto era sonho.
O que era cobiça
o que era pesadelo
o que era vício
o que era abdome.
Os homens não consideraram
os tímpanos da pedra
os batimentos cardíacos da pedra
o útero da pedra
os medos da pedra
os imponderáveis mistérios da pedra
o segredo imemorial que levava no ventre.
E não consideraram os caminhos apontados
pelos rumos impolutos da pedra
O degredo que representava a pedra
A redenção que viria da pedra
A postura interior da pedra
A transfiguração que viria
do lado sobremaneira esquerdo da pedra
o alumbramento talvez de possuí-la.
E não consideraram o que na pedra era pedra
o que na pedra era homem
o que na pedra era argila.
Os homens não consideraram os artifícios da pedra
os conflitos íntimos da pedra
o silêncio interior da pedra
o compromisso de monumento da pedra
o sacrifício peridural da pedra.
Não consideraram os limites humanos da pedra
a complexa dimensão da pedra
as severas dificuldades da pedra
na sua existência frágil.
A vida inteira passamos pela pedra
sem considerar o que na pedra é pedra
o que na pedra é útero
o que na pedra é homem.
A vida inteira o homem caminha de mãos dadas com a pedra.
Com a paciência da pedra,
o homem dorme
com o cansaço da pedra,
anoitece.
Com a sabedoria da pedra é que se multiplica,
com o segredo da pedra é que se renova.
A vida inteira o homem
ignora a pedra que o acompanha
A pedra que é a sua sombra
e que nele dorme
A pedra que é a sua memória
e que recebe o seu nome.
18/09/2020
CONSIDERAÇÕES A PROPÓSITO DO VERSO ENQUANTO PÃO DOMESTICADO
CONSIDERAÇÕES A PROPÓSITO
DO VERSO
ENQUANTO PÃO DOMESTICADO
Geraldo Reis
Eu não devia ter sangrado
os porcos
antes de arrancar o couro dos lagartos,
antes
de embolsar 30 moedas por ter dissimulado o verbo
e espalhado estranho rito em territórios minados,
antes
de orar sobre os corpos mutilados dos menestréis
vendidos como escravos para longínquas paragens,
antes de traduzir a gargalhada de um mioma
que fingindo ser palavra andou comendo o verso,
antes de chorar sobre a diáspora
de uma figura de estilo perdida entre sucatas,
atrás de uns óculos antigos
envelhecida e escorraçada de entre novos inventores,
antes
de repreender os ares ríspidos da véspera
que sendo deusa carregava no ventre o dia novo,
antes de embaralhar os ventos
soprados no outono de um perdido campanário,
antes de ouvir o sino plantado no alto de uma montanha
que já não vale nada porque foi tomada de assalto.
II
Eu não devia ter sangrado
os porcos
antes de embrulhar a paciência das enguias cobertas de lama,
antes de atravessar definitivamente
a porta fechada pelos poetas mortos,
atraídos pelo brilho milenar dos olhos da serpente,
antes de acionar à toda os motores da lancha costeira
e disparar o laser impiedoso sobre os sorrateiros invasores,
antes
de varrer com trezentos faróis incendiados
o negrume da noite acorrentado à tempestade,
antes de acender a pira improvisada de azeite
plantada na intimidade do poço
para arder ali, ao sul das homilias,
pelo menos durante a próxima eternidade,
quase para sempre,
porque
levara um verso ao suicídio.
III
Eu não devia ter sangrado
os porcos
antes de introduzir um salmo
na memória da semente enlouquecida,
antes de extrair um resultado improvável
e de todo inesperado
da equação impossível
que seria a salvação do verbo silenciado,
antes de modular a espinha dorsal
dos ventos soprados pela garganta dos galos
para que do canto brotasse um algarismo,
antes de repreender severamente
o incenso que insulta a paciência de Deus
e leva ao
desespero a veste pobre dos abades.
IV
Eu não devia
ter sangrado os porcos
antes de destruir a entrada
dos templos e dos parques incendiados,
antes de apagar a marca de um ‘beijo de judas’
que passava despercebido,
disfarçado sob a pele de búzios enganadores
e adorados pelos artófagos,
antes
de interpretar o canto das carpideiras sob a chuva,
canto que vem de longe e não comove mais a imensidão do bosque,
antes de desvendar o trigo
que descansa no colo de uma semente,
ao agasalho de enternecido sentimento materno,
antes de entender que a dimensão humana tem a ver,
e muito,
com a resignação de um papel que pensávamos indignado,
papel que ignora, por dever de ofício,
todo assédio,
papel que embrulha,
por indiferente,
o substancial teor de sódio do pão caseiro que o devora.
V
Eu não devia ter sangrado
os porcos
antes de decifrar o artifício de voo das aves,
antes de dissolver o grito
intumescido no raciocínio das enguias
antes de encerrar a procura
de corpos talvez adormecidos sob os campos ceifados,
antes
de apascentar os frutos
tornados de uma ressurreição à esquerda dos abismos,
antes de ordenhar as porcas que segundo os profetas
cantariam com gargantas de alumínio um canto tênue,
clamando pela manhã de um verso suspenso na clave de sol,
antes de saber se os dromedários
foram eleitos também para a festa,
ou tão somente para o sacrifício,
antes de abater os corifeus em comício
no conflito de um verbo feito pão,
entregue a todos como presente de uma antiguidade rupestre
distanciada de toda humana caligrafia.
VI
Eu não devia ter sangrado
os porcos
antes de esquadrinhar a ceia empiricamente,
antes de traduzir, por encomenda,
os versos que não chegaram ao seu destino como livros,
versos que embora prontos
não puderam ser escritos,
e desapareceram, perdidos de seus improváveis autores,
e escaparam, assim,
da mesa faminta de iludidos destinatários,
antes de doar à terra um exército de palavras
envelhecidas e derrotadas,
em verdade recém-saídas
dos compêndios da história antiga de mim mesmo,
reproduzindo a história pessoal de todo ser humano,
desde o primeiro habitante das águas e do subsolo.
VII
Eu não devia ter sangrados os porcos
antes de chover definitivamente sobre os plátanos,
antes traduzir o zumbido dos insetos
que chegam atrasados para a festa
e exortam a paisagem
sangrando como desconhecido mercúrio,
enfeitados de fórmulas
e de flechas tão somente molhadas de arco-íris,
mas que se acreditavam guardadas
no interior azul de um sacrário
de onde seriam disparadas
como verdadeiro pão humanizado.
VIII
Eu não devia ter sangrado os
porcos
antes de entender que a dimensão interior do homem
tem a ver, e muito,
com a dimensão estética desse pão caseiro,
antes de traduzir a dor estética de simples papel
que recebe o verso unificado e o multiplica
e o abençoa e o absolve,
e embrulha e entrega a todos,
repartindo,
por dever de ofício,
o pão da misericórdia
ainda aceso,
feito brasa,
como se o pão da misericórdia,
fosse verdadeiro e rútilo,
como se fossse
no universo rústico
dos porcos plantados no abismo
o corpo de Deus por mim domesticado.
Geraldo Reis
Belo Horizonte, 18 e 19 de fevereiro de 2020.
31/10/2019
CÂNTICO DE FOGO
29/08/2019
COM NOVO DESENHO, A POESIA PEDE PASSAGEM
LÍGIA PORTO: COM NOVO DESENHO
Na importância da cor, do traço, do perfil de pessoas e coisas que traz da infância privilegiada vivida em Barbacena/MG, nos contornos de um novo desenho que deixa ver sua experiência com o pincel, a cor e o traço personalíssimo na tela em branco, LÍGIA PORTO deixa em evidência para o intérprete, as origens de seu livro de estreia: DE LAÇOS E CANTOS... AS CORES DO PERGAMINHO (Poesia - 2019 - Editora O LUTADOR, de Belo Horizonte. (O livro tem prefácio de GR, que faz esse registro). A partir desse conjunto de instrumentos usados como referência para criação de seus mitos, LG, que tem, de fato, larga experiência como pintora, abre caminho para a criação de seu mundo poético, pincelando agora com palavras. Assim é que vai colorindo, aqui e ali, a página em branco.
POESIA NA ESTANTE
- 50 POEMAS (Antologia bilíngue: Português e Alemão) - Anderson Braga Horta / Tradução de Curt Meyr-Clason)
- A CONTINGÊNCIA DO SER - Célio César Paduani
- A INSÔNIA DOS GRILOS - Jorge Tufic
- A RETÓRICA DO SILÊNCIO - Gilberto Mendonça Teles
- A ROSA DO POVO - Carlos Drummond de Andrade
- A SOLEIRA E O SÉCULO - Iacyr Anderson Freitas
- A VACA E O HIPOGRIFO - Mário Quintana
- AINDA O SOL - Gabriel Bicalho
- ARTE DE ARMAR - Gilberto Mendonça Teles
- ARTEFATOS DE AREIA - Francisco Carvalho
- AS IMPUREZAS DO BRANCO - Carlos Drummond de Andrade
- BARCA DOS SENTIDOS - Francisco Carvalho
- BARULHOS - Ferreira Gullar
- BAÚ DE ESPANTO - Mário Quintana
- BICHO PAPEL - Régis Bonvicino
- CADERNO H - Mário Quintana
- CANTATA - Yeda Prates Bernis
- CANTIGA DE ADORMECER TAMANDUÁ E ACORDAR UNS HOMENS - Pascoal Motta
- CANTO E PALAVRA - Affonso Romano de Sant'Anna
- CARAVELA - REDESCOBRIMENTOS - Gabriel Bicalho
- CENTRAL POÉTICA - Lêdo Ivo
- CONVERSA CLARA - Domingos Pelegrini Jr.
- CORPO PORTÁTIL - Fernando Fiorese
- CRIME NA FLORA - Ferreira Gullar
- CRISTAL DO TEMPO & A COR DO INVISíVEL - Maria do Rosário Teles do invisível
- DIÁRIO DO MUDO - Paulinho Assunção
- DICIONÁRIO MÍNIMO - Fernando Fábio Fiorese Furtado
- DUAS ÁGUAS - João Cabral de Melo Neto
- ELEGIA DO PAÍS DAS GERAIS - Dantas Motta
- ESTESIA (Triolés) - Napoleão Valadares
- FANTASIA - Napoleão Valadares
- FINIS TERRA - Lêdo Ivo
- GUARDANAPOS PINTADOS COM VINHO - Jorge Tufic
- HORA ABERTA - Gilberto Mendonça Teles
- HORTA (Versos em Três Tempos) - Anderso de Araújo Horta - Maria Braga Horta e Anderson Braga Horta
- INVENÇÃO DE ORFEU - Jorge de Lima
- LAVRÁRIO - Márcio Almeida
- LIRISMO RURAL (O Sereno do Cerrado) - Gilberto Mendonça Teles
- MEL PERVERSO - Márcio Almeida
- MELHORES POEMAS - Paulo Leminski
- NARCISO - Marcus Accioly
- O ESTRANHO CANTO DO PÁSSARO - Célio César Paduani
- O ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA - Cecília Meirelles
- O SONO PROVISÓRIO - Antônio Barreto
- O TERRA A TERRA DA LINGUAGEM - Gilberto Mendonça Teles
- OS MELHORES POEMAS DE FERREIRA GULLAR - Ferreira Gullar
- PASTO DE PEDRA - Bueno de Rivera
- PLURAL DE NUVENS - Gilberto Mendonça Teles
- POEMA SUJO - Ferreira Gullar
- POEMAS REUNIDOS - Gilberto Mendonça Teles
- POEMAS REUNIDOS - João Cabral de Melo Neto
- POESIA REUNIDA - Jorge Tufic
- RETRATO DE MÃE - Jorge Tufic
- SIGNO (Antologia Metapoética) - Anderson Braga Horta
- VER DE BOI - Pascoal Motta
- VESÂNIA - Márcio Almeida
- VIANDANTE - Yeda Prates Bernis

